DE MENSAGENS E MENSAGEIROS

EM TEMPOS DE PANDEMIAS BIOLÓGICAS E INFORMACIONAIS
 

Rafael Capurro

(tradução: Arthur Coelho Bezerra)

  
 
 
 

Contribuição ao seminário virtual do Grupo de Pesquisa Escritos (Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social). Tema do Seminário: Ética em informação em tempos de pandemia. Coordenador Arthur Coelho Bezerra, IBICT (Brasil), 14 de maio de 2020 http://escritos.ibict.br/
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Da forma de ser dos vírus

A forma de ser dos vírus muda em um mundo digitalmente globalizado. Existe uma correlação entre os danos que um vírus pode causar local e globalmente e os causados pelas fake news digitais. Tanto o conceito de pandemia como algo que afeta todo o povo (do grego: pan) quanto o de epidemia como algo que afeta dentro de um povo (do grego: epi) podem ser entendidos em um sentido biológico ou informacional. Este último é geralmente chamado de “infodemia”, mas seria mais apropriado falar de pandemias ou epidemias informacionais. O biológico e o informacional estão ligados em um mundo globalizado pela técnica digital. O que acontece no nível biológico tem efeitos locais e globais no nível social e, vice-versa, o que acontece no nível informacional tem efeitos biológicos. O desafio é mudar ou criar novos sistemas de imunidade biológica e informacional, sem causar nos dois casos o oposto do que eles pretendem proteger, ou seja, a saúde de um organismo ou o bem-estar de cada um, de um povo ou de todos.

 

Da ética da informação

Para isso é necessária uma reflexão crítica sobre tais sistemas, que se torna igualmente virulenta quando esses sistemas de imunidade estão ausentes ou não podem fornecer a proteção esperada. No nível biológico, ainda não criamos uma vacina para proteger o organismo humano do coronavírus, ainda que existam várias maneiras de curar uma infecção, embora não acessíveis a todos. Uma vacina consiste em uma pequena dose do vírus que faz com que o corpo resista a receber esses mensageiros camuflados com sua mensagem letal. Os sistemas imunológicos no nível social não são menos complexos e ambivalentes. A resistência à disseminação do coronavírus levou quase todos os países a declarar um estado de emergência em que os direitos mais básicos da vida social são reduzidos ao mínimo, e que pode chegar a se manter de uma maneira ou de outra após a pandemia, apoiando sistemas políticos totalitários. A relação entre os dois fenômenos não deve ser entendida como uma analogia, mas como uma interação. Em tempos de pandemias e epidemias biológicas e informacionais, é necessário um pensamento crítico que analise as maneiras de fortalecer ou alterar os sistemas de imunidade e mostrar como e quando eles se transformam em sistemas opressivos ou protetores. Essa é a tarefa da ética da informação hoje.

 

Da angelética

O pensamento que chamo de angelética (do grego: angellein = enviar mensagens, anunciar) ou teoria das mensagens – que não deve ser confundido com a angelologia ou a teoria teológica dos anjos – pode ajudar a analisar o que é específico de cada sistema, bem como de suas interações. No caso do coronavírus, as interações são evidentes desde o início da pandemia em Wuhan, quando um oftalmologista, Dr. Li Wenliang, alerta sobre o perigo do coronavírus, mas é silenciado pelo sistema político chinês, que distribui fake news a respeito com toda a autoridade e garantia da verdade que esse sistema político tem ou deseja ter. O Dr. Li Wenliang, que havia sido infectado por um paciente, morreu em 30 de abril de 2020 aos 34 anos, deixando um filho e sua esposa esperando por outro. O vírus que traz a morte a um organismo trouxe-a ao mensageiro que o anunciou como letal e também a centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. O sistema de imunidade política aparece, portanto, como um sistema que, em vez de proteger a população, a expõe à morte. O vírus naturalmente não sabe nada do sistema biológico e social que afeta ou do mal que produz. Apenas busca um sistema biológico no qual possa se multiplicar. O sistema político chinês coloca seu poder e sobrevivência acima de tudo e reage revelando a verdade quando é tarde demais. O que significa tarde demais? Em um mundo globalizado no qual os sistemas de produção, intercâmbio e relações humanas estão interconectados, o vírus se espalha rapidamente por todo o planeta. Tarde demais significa então que em poucas semanas o coronavírus afeta milhões de pessoas, não apenas na China.

 

Do desvelamento midiático

Mas, na realidade, não é o próprio vírus que se expande geograficamente, e sim os mensageiros humanos que, a princípio, não sabem que o são. O desvelamento desse processo de verificação social – refiro-me ao termo grego da verdade ou a-letheia como desvelamento – não é apenas um processo cognitivo, o de saber ou não saber algo novo, uma vez que o vírus faz disso algo oculto, e isso é, do ponto de vista do sistema orgânico, a possível morte desse sistema. O desvelamento midiático traz consigo um tsunami informacional de tal modo que é difícil distinguir a verdade da não-verdade e, especialmente, da não-verdade que é distribuída por vários agentes políticos ou econômicos que colocam, como no caso chinês, seus interesses acima de tudo. A ocultação midiática da China tem sua contrapartida em formas de divulgação que causam todos os tipos de distorções e inseguranças pessoais e de grupo.

 

Do aprender a ler a crise

Tudo isso revela formas negativas de ser da sociedade global. Se aprendermos a ler esta crise que é virulenta de duas maneiras, isto é, biológica e informacional, podemos enxergar as formas positivas que ela impede. O coronavírus desvela as falhas de uma sociedade que se definiu como global, mas esqueceu que a globalidade informacional é inseparável da globalidade biológica, ou que um organismo não existe por si só, senão em interação com um conjunto, e que essa interação precisa de sistemas imunológicos que devem ser constantemente analisados para que não causem o contrário do que deveriam proteger. Visto dessa maneira, sistemas imunológicos simbólicos, como as regras morais ou legais de uma sociedade, devem ser revisados criticamente para que não se tornem regras opressivas, pois ocultam ou estigmatizam o que deve ser tornado público. E vice-versa: sistemas de informação que visam tornar todos públicos sem controles ou revisões críticas podem levar, paradoxalmente, a um desvelamento que é, na realidade, um véu da verdade em favor dos interesses que tal ocultação produz para aqueles que gerenciam processos informacionais ou aos agentes que os utilizam para proteger suas ambições políticas ou econômicas.

 

Da mensagem do coronavírus

Qual é a mensagem do coronavírus? Nem mais nem menos do que nos mostrar a verdade em que vivemos como um mundo globalizado interdependente uns dos outros. Mas isso não é algo que já sabíamos antes? Sim e não. Sim, porque a consciência de que vivemos em um mundo globalizado deixa de ser consciência e se torna realidade no momento em que essa dependência uns dos outros se torna comunicacional, primeiro com a imprensa e depois com a tecnologia digital. A diferença entre os dois é que o tipo de globalidade trazido pela tecnologia digital faz diferença em relação ao regime de temporalidade característico dessas duas mídias. Embora a temporalidade da comunicação impressa permita uma permanência do que é comunicado além do aqui e agora dos processos comunicacionais orais, o que também é característico da escrita que se expande globalmente com a prensa móvel, a tecnologia digital torna possível uma forma de comunicação cujo foco é um presente acessível a todos e de qualquer lugar, desde que todos tenham acesso à referida tecnologia. A versão existencial dessa globalidade comunicacional é um sistema global de ser-no-mundo, no qual a existência física de produtos e pessoas tende a ser concebida em termos semelhantes aos possibilitados pela tecnologia digital. Todos nós queremos ir a todos os lugares e todos queremos ter acesso a tudo em qualquer lugar. Uma panaceia cujas formas destrutivas se desvelaram especialmente no século XIX, em fenômenos como o colonialismo e o capitalismo. O mesmo vale para o que foram epidemias e pandemias no passado que agora se expandem vertiginosamente em um mundo digitalizado.

 

Das novas formas de coexistência

Sem embargo, a tecnologia digital não é a causa de todos os males como uma crítica antitecnológica e muitas vezes também anticientífica não se cansa de proclamar, mas sim o que perdemos de vista, que é a nossa capacidade de questionar nossos modos de vida com seus sistemas de imunidade, que se tornam sistemas mortais no momento em que não somos capazes de ver que tipo de vida estão impedindo ou que possibilidades de morte estão permitindo com o argumento de que a estão protegendo. Tanto a história da medicina quanto a da psicanálise ou a crítica da economia política são exemplos de maneiras de pensar criticamente sobre os sistemas de imunidade biológica e social. O coronavírus nos mostra sua maneira de revelar algo que a crise ecológica vem anunciando. Sua mensagem é a de que precisamos procurar novas formas de vida em comum, além do paradigma do domínio humano sobre os seres humanos e sobre a natureza, se não queremos continuar destruindo ambas. Visto dessa maneira, o coronavírus tem, paradoxalmente, uma mensagem de vida, mas que precisa ser interpretada como tal. Os vírus pertencem ao mundo em que vivemos e morremos. Temos que continuar aprendendo a viver com eles. Eles não são um inimigo com quem estamos em guerra, mas um fundamento da vida. Os virologistas estimam que o número de vírus no mundo é 10 na potência 33 e o de bactérias 10 na potência 31. Os seres humanos são cerca de 10 na potência 10. Vírus e bactérias são básicos para o bem – e o mal estar – humanos. A retórica da guerra contra o coronavírus é parte do problema e não da solução.


Ultima modificación: 6 de mayo  de 2020

 

     

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