CONTRIBUIÇÕES PARA UMA ONTOLOGIA DIGITAL

 
Rafael Capurro
  
 
 


Texto presentado en el III Colóquio Internacional de Metafísica (CIM), 20-24 de abril, 2009, Natal, Brasil, UFRN. Traducción al portugués del texto en español por Soraya Guimarães, PPGFIL - UFRN. Ver la presentación portuguesa PowerPoint. Publicado en: Jaimir Conte, Oscar Federico Bauchwitz (eds.): O que é metafísica? Atas do III Colóquio Internacional de Metafísica. Natal: UFRN, 2011, 321-337. Este artículo tiene su origen en un diálogo (en alemán) con el filósofo australiano Michael Eldred en el año 1999 (Ver Capurro 1999; Eldred 1999) así como en el texto “Einführung in die digitale Ontologie” (“Introducción a la ontología digital”) en: G. Banse (Ed.): Technik und Kultur (2009). El autor agradece al Prof. Oscar Krütli (Argentina) por sus sugerencias y correcciones. Todos los términos griegos, incluyendo las citas, están transcribidos y puestos en cursiva.



 

INDICE

Introdução
A origem grega
Esboço de uma ontologia digital
Conclusão

Bibliografia


Resumo

    Este artigo está dedicado a uma investigação das origens da ontologia digital na metafísica grega (Platão, Aristóteles) tomando como base a análise de Heidegger sobre a aritmética e a geometria grega em seus seminários de 1924/1925 publicados com o título “Sophistes”. O artigo parte da tese de que a interpretação do ser que prevalece hoje em dia é aqui chamada ‘ontologia digital’. Esta interpretação tem sua origem na concepção grega da aritmética e da geometria, em especial dos conceitos de ponto e número. A separação do ponto e do número do ente natural é uma condição de possibilidade da atual ‘in-formação’ dos mesmos no meio digital. O artigo esboça na segunda parte as conseqüências desta concepção para o desenvolvimento de uma ontologia digital. Dá-se uma ênfase especial à diferença entre ontologia, como uma possivel interpretação do ser, e metafísica como uma interpretação do ser que não se reconhece a si mesma como tal.

 

INTRODUÇÃO

   
     Vivemos em culturas digitais. A técnica digital impregna a vida cotidiana e laboral, a política e a economia, a investigação científica, a administração pública, a educação etc. Apesar da relação entre técnica e cultura sempre haver sido muito estreita na evolução da humanidade, o que caracteriza nossa situação atual é que isto ocorre globalmente e quase simultaneamente, em todo nível, e com relação a uma técnica, a digital, que se desenvolveu em curto tempo e assim segue a uma velocidade vertiginosa. As culturas digitais são parte de uma cultura global pela qual nem todos os seres humanos estão influenciados por ela da mesma forma. Se usa o termo brecha digital para designar o problema do acesso à internet a qual é somente um aspecto da diferença entre países e grupos de países mais ou menos desenvolvidos ou entre grupos dentro de uma mesma sociedade. No entanto, o que caracteriza mais profundamente nossa situação atual não é simplesmente o fenômeno da internet ou de algum de seus serviços como ser a World Wide Web ou correio digital, se não mais profundamente a “crença” como a chamaria Ortega y Gasset, de que todos os fenômenos podem ser vistos, analisadas, construídos e manipulados sob a condição de que possam ser digitalizados. Num nível diário esta crença tem efeitos muito banais: se alguém não está presente na rede é como se no existisse! Se esta interpretação do Zeitgeist (espírito da época) é correta podemos dizer que hoje vemos a realidade no horizonte de sua digitabilidade.

    Seguindo um dos caminhos do pensar abertos por Martin Heidegger, distingo entre ontologia, ou também “ontologia fundamental”, no sentido de compreensão do ser (do homem), e metafísica, ou seja, a concepção do ser dos entes a qual não reflexiona criticamente sobre suas condições de possibilidade no conhecimento humano como assim indica Kant ou a existência humana como faz Heidegger (Heidegger 1991). Se a metafísica está baseada na finitude do conhecimento e existência humanas, sendo, portanto, uma ontologia, si se vê como marco provisório da compreensão do ser, também é este o caso das “formas simbólicas” como as pensou o filósofo kantiano Ernst Cassirer (Cassirer 1994). Heidegger e Cassirer foram adversários na famosa disputa de Davos em 1929 (Heidegger 1991). Cultura e técnica entendidas como processos formativos simbólicos ou materiais são fenômenos ônticos ou categoriais. “Todo instrumento novo”, diz Cassirer, “criado pelo homem, significa então um novo passo não somente para a formação do mundo exterior, mas também para a formação de nossa autoconsciência." („Jedes neue Werkzeug, daß der Mensch findet, bedeutet demgemäß einen neuen Schritt, nicht nur zur Formung der Außenwot, sondern zur Formierung seines Selbstbewusstseins.“ Cassirer 1994, Bd. 2, S. 258). Em outras palavras, cultura e técnica estão baseadas, de acordo com a tese que irei esboçar, em uma interpretação do ser, sendo possível também pensar o conceito de cultura em sentido ontológico, buscando assim um caminho comum a Heidegger e Cassirer.

    O que é o ente? Esta pergunta fundamental da metafísica não pode ter uma resposta definitiva a partir da perspectiva de um conhecimento finito sem cair na ilusão essencialista. Isto tem conseqüências para a problemática de como pensar uma cultura digital. Uma ontologia digital é uma interpretação possível do ser dos entes vistos desde sua digitabilidade. No entanto, tal ontologia corre sempre o perigo de transformar-se em uma metafísica digital no momento em que acredita ser a verdadeira ou única resposta à pergunta pelo ser. A ontologia digital é uma possível compreensão do ser por parte do conhecimento humano finito. Todas as regiões ou esferas dos entes são concebidas então como digitais.

    Utilizo a fórmula esse est computari para caracterizar a interpretação digital do ser que creio que é a dominante atualmente. Esta fórmula se assemelha a de George Berkeley “seu ser [ou das coisas, RC] é ser percebido” („Their esse is percipi“) (Berkeley 1965, p. 62), no entanto não deve interpretar-se no sentido de que tudo é puramente virtual ou que as coisas consistem essencialmente em bits, ou que se poderia denominar pitagorismo digital. A fórmula quer dizer o seguinte: acreditamos hoje haver compreendido algo em seu ser quando o analisamos são somente na base da sua possibilidade de ser quantificado como o concebe a ciência moderna, mas também contato que tal quantificação se baseie no meio digital. Também poderia variar-se esta fórmula dizendo esse est informari ao passo que o processo de entender o ser dos entes se concebe como um processo de ‚in-formação’ digital. A rede digital global é a perspectiva a partir da qual experimentamos e formamos atualmente o que a metafísica chama, segundo Heidegger, “o ente em sua totalidade” (“das Seiende im Ganzen”).

    A origem deste projeto ontológico pode ser buscada, seguindo pistas abertas por Heidegger, na metafísica grega e em suas posteriores transformações por correntes e autores tais como o neoplatonismo, os escolásticos, Raimundo Lullus, Pascal, Descartes, Leibniz, os empiristas ingleses e os pragmáticos do século XIX e XX, mas também em revoluções científicas e técnicas em particular dos últimos séculos, como a teoria da evolução, a mecânica quântica, a biologia molecular e, por certo, a técnica computacional. No marco desta breve contribuição a uma ontologia digital somente me referirei à origem grega, esboçando em um segundo momento as características de tal ontologia.

 

A ORIGEM GREGA


    Os signos 0/1, que são a base da atual técnica digital, tem um sentido diferente no contexto de uma teoria da transmissão de sinais que em ou de, por exemplo, uma interpretação cabalística de seus significados na qual falaríamos melhor de símbolos. Comecemos então refletindo sobre a categoria de signo. Pertence tal categoria ao ente enquanto tal num sentido metafísico ou é uma propriedade de um tipo de ente, de um agente, divino, humano ou de outro tipo? A filosofia clássica a pensa no primeiro sentido enquanto que todos os entes estão relacionados hierarquicamente o qual, como vê claramente Heidegger em “Ser e tempo”, tem sua medida ontológica oculta numa concepção do tempo que dá primazia ao presente e consequentemente ao ser como presença permanente. O máximo ente é paradoxalmente um signo ou um pensar que se indica ou se pensa a si mesmo, “nóesis noéseos nóesis” disse Aristóteles (Met. XI, 9, 1074 b 34), permanecendo imutável em sua autopresença e auto-assinalamento. No entanto, também é certo que se pode interpretar a metafísica clássica como um sistema comunicacional de agentes tomando uma perspectiva mais própria da modernidade na qual os signos têm um papel central dentro de um sistema de agentes comunicacionais (Capurro 2009b).

  Recordemos a análise heideggeriana de “Indicação e signo” (“Verweisung und Zeichen”) em “Ser e tempo”. Heidegger escreve, seguindo a análise de Husserl, que “signo” (“Zeichen”) “é uma “característica” de todos os entes em geral” (Heidegger 1976, 77) podendo-se distinguir outros tipos de “indicação” (“Verweisung”) como por exemplo sinais de trânsito, bandeiras etc. O conceito de “indicação” está aparentado com o de “relação” (“Beziehung”). O importante nesta análise é que Heidegger escreve que ainda o conceito formal de “relação” e por conseguinte o de signo, tem seu fundamento ontológico na de “indicação” ou seja na relação mundana e pragmática a qual pertence o conjunto dos “instrumentos” (“Zeug”) que usamos na vida diária. Em outras palavras, nosso “ser-no-mundo” consiste (mesmo que não somente) em estar imersos numa “relação de indicações” (“Verweisumgszusammenhang”) as quais são uma característica ontológica dos “entes-à-mão” (“Zuhandenes”). O oposto disto é a visão cartesiana do mundo como “res extensa” e do ser humano como “res cogitans”.

    As diferenças entre signo, sinal e símbolo assim como entre signo e indicação quase desaparecem na modernidade enquanto que são reduzidas a meras relações formais, desligadas de seu fundamento pragmático mundano. Se tomarmos o caso dos signos 0/1 no contexto computacional podemos comprovar que não são tais signos os que se transmitem senão correntes elétricas, as quais são interpretadas por nós como 0/1. Este código é então nosso aporte à constituição do projeto ontológico digital. Isto não quer dizer que todos os fenômenos são reduzidos a uma lógica binária visto que com base em tal código se podem, por exemplo, calcular relações de fuzzy logic não menos que fenômenos de mecânica quântica e as linguagens naturais. Deixemos aberta a possibilidade de um novo código fundamental baseado em fenômenos quânticos, o qual foi esboçado no marco de uma “teoria quântica da informação” (Lyre 1998), e com ela a possível invenção de um computador quântico, o qual daria lugar não somente a uma cultura, mas também a uma ontologia quântica entendida esta última como uma nova relação fundamental do ser humano com o mundo.
           
    Para investigar as origens da ontologia digital tomo como ponto de partida o seguinte texto do curso de Heidegger do semestre de inverno de 1924/1925:

    „Dabei ist zu beachten, dass für Aristoteles die primäre Bestimmung der Zahl, sofern sie auf die monás als die arché zurückgeht, einen noch viel ursprünglicheren Zusammenhang mit der Konstitution des Seienden selbst hat, sofern zur Seinsbestimmung jedes Seienden ebenso gehört, dass es ‚ist’, wie dass es ‚eines’ ist; jedes on ist ein hen. Damit bekommt der artithmós im weitesten Sinne – der arithmós steht hier für das hen – für die Struktur des Seienden überhaupt eine grundsätzlichere Bedeutung als ontologische Bestimmung. Zugleich tritt er in einen Zusammenhang mit dem lógos, sofern das Seiende in seinen letzten Bestimmungen nur zugänglich wird in einem ausgezeichneten lógos, in der nóesis, während die geometrischen Strukturen allein in der aisthesis gesehen werden. Die aisthesis  ist das, wo das geometrische Betrachten halt machen muss (stésetai), einen Stand hat. In der Arithmetik dagegen ist der lógos, das noein, am Werk, das von jeder thesis, von jeder anschaulichen Dimension und Orientierung, absieht“ (Heidegger 1992, p. 117)

    "Deve-se prestar atenção que para Aristóteles a determinação originária do número, enquanto que ele faça referência a monás como arché, tem uma relação muito mais originária [que a da aritmética como subjacente à geometria, RC] para a constituição do ente mesmo, dado que tanto o “é” como o “é uno” pertence à determinação ontológica de todo ente. Cada on tem um hen. Com base nisto, o arithmós em sentido amplo – o arithmós ocupa aqui o lugar do hen – adquire um significado fundamental como determinação ontológica da estrutura do ente em general. Ao mesmo tempo o número entra em relação com o lógos enquanto que o ente somente é acessível em suas determinações últimas através de um lógos ótimo, na nóesis, ao passo que as estruturas geométricas são vistas somente na aísthesis. É nesta última onde a observação geométrica deve deter-se (stesetai), tendo ali seu lugar. Na aritmética, pelo contrário, é o lógos, o noein o que entra em jogo, prescindindo de todo tipo de percepção sensorial assim como de orientação.“ (Tradução do autor neste e nos trechos seguintes).

    O separar (khorizein), escreve Heidegger, é para Aristóteles o “ato fundacional da matemática” (Heidegger 1992, p. 100). É curioso que seja Aristóteles quem fala de “separação” se pensarmos que normalmente isto é atribuído a Platão. As mathematiká são algo extraído dos entes naturais (physei ónta). O matemático retira algo de seu lugar (khóra). Para Aristóteles não existe um lugar celestial (tópos ouranós) para os números. La diferença entre geometria e aritmética consiste em primeiro lugar em que a monás não é posta (ousía áthetos) como é o caso do ponto (stigmé). A monás simplesmente é. Os pontos precisam ser colocados. Os lugares pertencem aos entes. Cada ente tem seu lugar: o fogo acima (áno), a terra abaixo (káto) etc. Estas determinações têm para Aristóteles em parte um sentido absoluto, mas em parte também uma relação ‘para nós’ (pros hemais), quer dizer, dependem de onde nos encontramos.

    O lugar (tópos) é difícil de definir. Começamos a ser conscientes dele quando vemos algo que se move. O lugar é o limite do periekhon, quer dizer, do que limita a um corpo. O mundo segundo Aristóteles está orientado na forma absoluta (há um acima absoluto etc.). Heidegger chega à conclusão de que o lugar tem uma dynamis enquanto que é a “possibilidade da pertença correta de um ente” („Möglichkeit der rechten Hingehörigkeit eines Seienden“). O lugar pertence ao ente como seu “poder ser presente” (“Anwesendseinkönnen”) no sentido de um “poder ser aí” (“Dortseinkönnen”). O ente existe, quando existe aí (Heidegger 1992,  p. 109). Heidegger analisa desde aí a gênesis da geometria e a aritmética. Se excluímos o tópos e consideramos somente as posições e orientações possíveis entramos no campo da geometria. O geométrico é aquilo que não está em seu lugar. As pérata não podem ser entendidas então como os limites de um corpo físico, mas sim  adquirem sua característica peculiar com base numa thesis. Mas, isto não quer dizer que as formas mais complexas sejam simplesmente compostas por limites como serem os pontos. As linhas, por exemplo, não se constroem a partir dos pontos visto que entre dois pontos existe sempre uma linha (grammé). Aristóteles e Platão se encontram neste ponto, segundo Heidegger, “em oposição total”: “É certo que os pontos são as arkhai do geométrico, mas não no sentido de que ao somá-los se possa construir uma forma geométrica.” (Heidegger 1992, S. 111). Falta um “tipo determinado de relação” („bestimmte Zusammenhangsart“). Algo semelhante acontece na aritmética onde a monás não é um número. O primeiro número é o dois. Porém, dado que na monás, a diferença dos elementos geométricos, não implica uma thesis, a relação de um conjunto aritmético é distinta do caso dos pontos. Ambas formas de multiplicidade e de relação reticular são diversas. Em que sentido? Seguindo a análise aristotélica no quinto livro da Física (Phys. V, 3), Heidegger distingue diversas formas de relação:

  • kháma: ao mesmo tempo; quando as coisas se encontram em um lugar;
  • khóris: separado; quando algo está em outro lugar;
  • háptesthai: tocar-se (em um lugar);
  • metaxý: entremeio (ou meio, no sentido, por exemplo, de um rio no qual se move um barco);
  • ephekhés: o seguinte; entre o que está antes e o que segue não há algo entremeio que seja do mesmo gênero (ou do mesmo origem ontológico) (“Seinsabkunft”) que o relacionado em uma rede. Por exemplo, as casas numa rua estão em uma fila mas, seu meio comum não é, por sua vez, uma casa. Este é o tipo de relação reticular das mônadas, entre elas não existe nada. Se tocam mas não como no caso da syneches;
  • ekhómenon: o que se conserva, um depois de outro que se mantém e se tocam e cujos extremos se tocam em um lugar como por exemplo um cabo e uma tomada;
  • synekhés continuum: aqui não há um entremeio; se trata de um ekhomenon porém sem um entremeio ou também de um ekhómenon originário. Por exemplo, quando os limites de uma casa são idênticos ao de outra casa. Esse é o modo reticular de relação entre os pontos que conformam uma linha.


    Todo ente (ón) é um hen. No caso da geometria a percepção (áisthesis) é indispensável, ao passo que na aritmética ou lógos prescinde de todo tipo de posição (thésis) assim como também de toda intuição sensorial (“Anschauung”). As coisas enquanto que são uma, pertencem umas as outras ou são parte de uma rede no sentido da epekhes, quer dizer que não é necessário que se toquem, porém tampouco é necessário que exista algo entre elas (Heidegger 1992, p. 113-116).

    Assim como os gregos separaram os números de sua relação com os entes naturais (physis) também, segundo minha tese sobre o origem da ontologia digital, os separamos atualmente de sua relação com o espírito (nous) e corpo humanos, porém em vez de colocar-los num lugar teológico fazemos deste um lugar  tecnológico. quanto somos nós quem interpretamos o ser, o tempo entra sempre em jogo, visto que somos entes temporais (Heidegger 1992, p. 632). Heidegger vê a possibilidade de interpretar o ser do “Dasein” a partir da perspectiva do mundo ou vice-versa e se decide por interpretar o mundo a partir do “Dasein”. A razão por esta opção é que o “Dasein” tem sua temporalidade própria que não é idêntica a do mundo. “O sentido mais imediato do ser”, escreve Heidegger, é o presente (“das Gegenwärtige”) (Heidegger 1992, p. 633). Porém para nós também o passado e o futuro são modos de ser que não correspondem ao ser do mundo com seu caráter presencial: “O ser do mundo é presença” („Das Sein der Welt ist Anwesenheit“) (Heidegger 1992, p. 633). A apropriação do ente desde uma perspectiva lógica e digital tampouco se adequa à interpretação do ser do “Dasein”. Porém se vale o contrário: o ser das relações lógicas e digitais pode esclarecer-se com base numa interpretação do ser do “Dasein” que leva em conta (não somente mas, também) “o sentido mais imediato do ser” ou seja a presença (“Anwesenheit”).

    Resumo. Os pontos têm um lugar e podem diferenciar-se uns dos outros. Os números não têm lugar, mas se diferenciam entre si. Ambos, os pontos e os números, são separados do ente natural (physis), o qual significa que não tem uma existência própria como crê Platão. O ente digital enquanto digital implica a separação da estrutura do número dos entes naturais, e separa também, para tanto, o ente de seu lugar natural. O ente digitalizado, o ente em sua potencialidade de ser digitalizado não tem um lugar próprio ou é atópico enquanto que concebido como número. Esta é uma condição de possibilidade para a invenção de uma técnica que omite justamente a perspectiva do lugar, em contraposição, por exemplo, a uma biblioteca que se constitui com base na matéria (hylé) dos livros. No entanto, também a escrita produz uma atopicidade, dado que os livros podem tomar outro lugar.

    A atopicidade do lógos é uma característica estranha que talvez constitua um ponto chave no que Platão se diferencia dos sofistas. Platão sempre recalca o caráter situacional do lógos a diferença da escrita, como o expõe no “Fedro” precisamente com o mito da invenção da escrita. Para Platão o número tem um valor ontológico maior que o lógos visto que está menos unido à matéria. Também por isto o número pode captar melhor o eidos das coisas ao passo que o lógos está mais próximo do perceptível com os sentidos. Aos sofistas interessa a possibilidade de negociar com o lógos onde e quando seja mais conveniente o separando assim da situação tópica dialética. Isto indica também que a partir do ponto de vista Platônico, o lógos oral sofista não está menos separado de um lugar que o lógos escrito. Aristóteles toma esta intuição sofista, mas sem compartilhar a prática de poder subjacente. Ademais o caráter atópico do lógos permite que a téchne, ou seja o saber como se produz algo artificialmente, e a poiesis, ou seja o próprio processo de produção de entes artificiais, separem de seu lugar própio ao ente natural com seu hylé.

    É assim que com base na relação reticular os números têm a possibilidade de ser localizados? Mais parece ser que eles estão sempre em algum lugar mas, não exclusivamente num só lugar. Em outras palavras, os números se encontram na interseção entre hylé, ponto e lógos. E o que acontece então com a diferença que faz Heidegger entre monás e hen? Se o hen é próprio dos entes naturais, podemos entender desde aqui tanto o adágio escolástico ens et umum convertuntur (em grego: on kai hen) assim como também o adágio “o um e o todo” (hen kai pan). Também podemos comparar a diferença entre ente e não-ente com a diferença entre monás e 0. Primeiro temos o mundo natural e em segundo lugar aquilo que é atópico (átopos) e sem mundo e que surge devido ao processo de separação (khorízein). O resultado é um esquema com diferentes níveis de abstração ou de separação do ente natural:

  • ente natural (physei ónta): determinado pela unidade, lugar e posição (hen, tópos, thetós);
  • ponto (stigmé): determinado pela atopicidade e a posição (átopos, thetós) assim como pelo toque (synekhés, continuum);
  • A unidade (monás): determinada pela atopicidade e aposicionalidade (átopos, áthetos).

Esta separação se realiza hoje como uma ‚in-formação’ ou produção do número e ou ponto no meio digital.

ESBOÇO DE UMA ONTOLOGIA DIGITAL

   
    A pergunta que surge é de que maneira nos habitamos num mundo que é interpretado ontologicamente desde este horizonte? Os gregos – ou mais precisamente: Platão y Aristóteles – se orientaram com o lógos e desenvolveram uma ontologia. O lógos controla os diferentes níveis hierárquicos, sendo ele quem finalmente conhece a monás, ou seja, o hen. Heidegger faz alusão à discussão do ón como hen em Parmênides. A frase “tudo o que é, é um” (hen ón to pan) tem uma história complicada com relação à esfera parmenidiana, sendo um ponto importante a diferença entre unidade como totalidade de partes e unidade como algo que antecede a tal totalidade (Heidegger 1992, p. 457). Expresso em grego, se trata da diferença entre hen como páthos epítois méresi (ou também: synekhés ek póllon méron ón) e hen alethós, ou unidade primária. Isto tem como conseqüência que o ón como hen (alethós) não é idêntico ao hólon no sentido de totalidade constituída por partes. Se o hólon não é então constitutivo do ón, tampouco pertencem a este a gênese e a ousía, visto que o devir chega a sua perfeição no sentido de uma totalidade que culmina num ente terminado e completo. Porém onde não há devir nem tampouco ser há um ón. A tese de Parmênides leva a uma contradição, como o indica Heidegger neste comentário sobre Platão.

    Dado que Platão pensa no horizonte do hen e dá ao me ón um lugar no todo, surge a pergunta como pensar o me ón no horizonte digital? O que é uma impressão digital? Ela mostra algo passado (me ón) do digital. Talvez nos vejamos confrontados no caso da ontologia digital com um Parmênides ao revés. Ao passo que no caso de Parmênides o hólon – ou seja a totalidade no sentido de totalidade composta de partes – se desprende do ón, não havendo então mais possibilidade de gênesis e ousía, no caso da ontologia digital se trata do desprendimento do hen do ón, que nos dá então a gênesis e a ousía porém não o “ser” e a “totalidade” (pan). A pergunta que surge então é se a ontologia digital permite ver somente a monás, mas não o hen (alethós)?

    A técnica digital possibilita uma nova forma de atopicidade dos números. Como vimos, os números não têm um lugar fixo ou são atópicos, mas podem estar em qualquer lugar ou, para ser mais preciso, se encontram num lugar, porém não são dependentes do mesmo por natureza. Os números, para dizer paradoxalmente, têm um lugar e são atópicos. Se considerarmos que aos parâmetros de espaço e tempo se soma agora o meio digital, o resultado é a constituição do que podemos chamar o ente digitalizável. Que papel tem nesta ontologia a rede digital? Creio que utilizamos atualmente o conceito de rede de maneira exagerada. A pergunta é se a rede constitui ontologicamente um novo fenômeno. O mundo digital é mundo e não é mundo, é local e global. O ser humano não tem somente a possibilidade de buscar a permanência frente a um ente perene, mas também a de existir em relação a um ente que é produzido pela téchne monás, ou seja, por um saber produtivo da unidade numérica. O que acontece quando conectamos o lógos com a aritmética tecnologizada? A possibilidade de que o lógos se separe do ente natural, ou seja, da voz (phoné) se mostra na discussão do Sócrates Platônico com os sofistas no “Crátilo” em relação com o debate physei/thesei.

    Na ciência da informação se usa o conceito de information retrieval, ou seja, da recuperação da informação (Capurro 1986). Como se diferencia a recuperação lógica da recuperação matemática do ente? Se os entes naturais nos incitam a partir de si próprios a dar uma resposta, de que forma o fazem os entes artificiais? A resposta Platônica a esta pergunta é que o fazem enquanto que somos nós quem ao  construir-los nos abrimos primariamente ao chamado das idéa as quais imitamos. Esta é a solução Platônica ao que chamamos criatividade: as idéias são paradigmas da produção de entes artificiais. Para Aristóteles, por sua vez, o que nos rege originariamente é o ente natural, do qual se separam os lógoi. O número e o lógos deixam aparecer o ente de uma maneira diferente da aparição natural. Eles permitem também outra forma de ser dos entes enquanto que estes são produzidos a partir do lógos do número. Trata-se de uma produção com base numa téchne que é ontológica, monadológica e aritmológica. A conjunção destas três formas é a produção do ente onto-aritmológico. Isto tem como conseqüência que os mesmos entes naturais (physei ónta) não somente se tornam presentes de modo diferente, mas que são percebidos ontologicamente de um modo diverso. Em outras palavras, a técnica onto-aritmo-lógica deixa ser o ente de um modo diverso ao da physis assim como das outras formas conhecidas até agora de separação como são o ponto e o número. Qual é a relação do ente onto-aritmo-lógico com o lugar? Tal ente está num lugar, porém não depende ontologicamente do mesmo.

    Um meio eletromagnético ou, para dizer de maneira mais genérica, um microprocessador, que consta de um semicondutor e de corrente elétrica, pode elaborar signos discretos, por exemplo na forma de alto ou baixa voltagem. A técnica digital trabalha com base nos signos 1/0 os quais são, como indicado no começo, nosso aporte simbólico. O microprocessador não tem nenhum conhecimento de tais signos. Podemos falar dos microprocessadores como de uma massa na qual algo se imprime. To ekmagéion chamavam os gregos neste sentido, por exemplo, a cera ou o gesso. O resultado é to ekmágma, ou seja, a cópia do que se imprime. Este processo de impressão material tem também um sentido epistemológico enquanto que é o lógos ou a idéia quem se imprimem na alma (psyché) através de processos sensoriais. Ambos os sentidos, o material y o epistemológico, estão intimamente relacionado ao conceito latino de informatio e à sua historia posterior (Capurro 1978). Mageia significa algo mágico. Platão fala do ekmagéion num famoso texto do “Timeo” referindo-se à khóra, ou seja, a um meio capaz de receber a impressão de todos os entes,  e a chama a “ama do devir” (Tim. 52b). Ela tem que estar livre de todo tipo de imagens (eidos) se quer “receber o que é capaz de gerar (géne)” (Tim. 50e). Platão afirma que todo tem que ter seu lugar (tópos) e seu meio (khóra) e que se “algo que não está nem na terra nem no céu, simplesmente não existe” (Tim. 52b). Isto vale também para o ente digital o qual precisa de um meio para existir e mover-se sendo então os microprocessadores o meio eletromagnético como uma khóra que recebe o ente digital aritmológico. A ontologia se orienta em direção ao lógos ou ao ón legómenon, ou seja, ao ente tal como este se apresenta como algo sobre o que se pode dizer algo. Aqui está a diferença com a ontologia digital a qual se orienta pela monás ou pela mathematiká, porém não em general, mas sim enquanto que estas – as mônadas ou unidades – estão ligadas tecno-lógicamente ao meio digital. A expressão ontologia digital, vista assim, é um oximoro. Melhor seríamos falar de ontoaritmética digital.

     Para Aristóteles o hypokéimenon é o que está subjacente com relação ao légein, ou seja, algo que está pre-compreendido antes do falar. Porém o que acontece quando este caráter fundamental do ser não tem sua origem no lógos, mas sim no arithmós? E ainda mais, quando o arithmós é concebido tecno-lógicamente? O que subjaz ao contar? O que possibilita o contar? Simplesmente a monás enquanto que ela não é posta (áthetos). Segundo Aristóteles o hen é um princípio o qual podemos recorrer até o ponto de vista do contar (arithmós) (Met. V, 1016b 18ss). Porém o hen é um meta-predicado visto que o que percebemos como hen é diferente de acordo com o ente em questão. Se o que contamos pertence ao indivisível (adiáireton) e o não-visto (átheton), então a unidade da monás é também indivisível. Uma linha é divisível em uma direção, a superfície no dois etc. Aristóteles faz, ademais, a seguinte distinção: O ser do hen pode ser entendido a partir do ponto de vista do número, do eidos ou da analogia:

  • hen a partir do ponto de vista do número tem a ver com a hylé;
  • hen a partir do ponto de vista do eidos tem a ver com o lógos, ou com o schema tes kategorías;
  • hen a partir do ponto de vista da analogia tem a ver com a relação do uno com o outro.

    Segundo Aristóteles o ponto de vista do número é a dimensão fundamental (Met. 1016 b 30ff). O que é uno a partir do ponto de vista do número tem também um eidos, mas não vice-versa. A monás é, portanto, uma forma (entre outras) da unidade hen. A continuação, escreve Aristóteles, que a unidade do número é  origem e medida (en tou arithmoú arkhé kai métron). Isto significa conceber o hen como monás, ou melhor, pensar a monás como origem do contar (arithmós)

    Retornemos a Heidegger. O que é o decisivo ontologicamente: a monás ou o hen? Cada ente (ón) é na verdade um hen, mas o ser do hen do ente não é algo uniforme e tampouco idêntico à monás e ao arithmós. Sem dúvida, o hen a partir do ponto de vista do número é fundamental com respeito ao ser do uno do eidos e de la analogia. O número (arithmós) antecede ao lógos dada a sua não-posicionalidade  (áthetos). De acordo com Heidegger é esta a razão pela qual para Platão o número é mais originário que o lógos considerado ontologicamente, visto que o número necessita menos que o ponto, mas o hen “não é ele mesmo número” (Heidegger, p. 121). Isto é  desenvolvido também por Aristóteles tomando o lógos como exemplo (Heidegger 1992, p. 120). Os números e as sílabas são autônomos. A ‘sílaba em si’ não existe, ao passo que um ponto é como os outros.

    Quando os números estão localizados na intersecção de matéria (hylé), ponto e lógos, não são simplesmente atópicos, mas tampouco estão ligados a um lugar especial. Esta é uma forma de estar-en-um-lugar que segundo Tomás de Aquino é própria das “inteligências separadas (da matéria)” (intelligentiae separatae) (Capurro 1993). Estas elucubrações escolásticas sobre o ser do que os teólogos chamam ângulos tem sido a miúdo objeto de deboche. Sem dúvida elas podem ser um Gedankenexperiment (experimento mental) interessante se as relacionamos com o tema da ontologia da virtualidade digital. Foram os filósofos árabes da Idade Média quem seguindo pistas da cosmologia grega cunharam este conceito (Capurro 1978). As “inteligências separadas” foram pensadas como motores que mantém as estrelas e os planetas em movimento perpétuo. Esta mecânica celestial foi substituída por forças naturais de onde se derivou uma indústria mecânica desde meados do século XIX. Ao final desta evolução as máquinas se tornam novamente abstratas e voltamos a uma espécie de inteligência que se caracteriza por sua virtualidade, não sendo produto, desta vez, de um inventor divino, mas sim de um humano.

    La máquina contadora universal se ‘hibridiza’ com o lógos no decorrer do século XX. Porém a fins de poder adequar-se ao caráter universal dos números e dos pontos, o lógos tem que transformar-se artificialmente em quantificável. Corresponde a este lógos uma forma especial de compreensão? Se deriva disso algo assim como uma hermenêutica digital (Capurro 2008)? Estamos mais próximos (ou de outro modo) do ser que utiliza como meio a linguagem natural? Não é por acaso o manifestar-se dos entes na percepção estética uma forma de separação do ente até o outro?

    Pensemos que segundo Aristóteles se forma “na alma” uma imagem (phantasma) das coisas sensíveis sem que isto signifique um duplicar-se das mesmas na consciência, mas sim que a percepção se dirige às cosas como órgãos sensoriais especiais percebendo “o próprio”, que Aristóteles chama como ser o ouvido percebendo o som. E não é assim que a concepção metafísica do lugar do lógos na alma (psyché) como o lugar do pensar, ou seja, como um diálogo da alma consigo mesma, como pensa Platão, não significa senão a separação originaria do lógos da ‘inter’-relação existencial?

    A este último alude Heidegger quando dá primazia ao falar (“Rede”) e ao “como hermenêutico” (“hermeneutisches Als”) como algo anterior ao “como apofântico” (“apophantisches Als”) (Heidegger 1976, p. 153 ss) São a ‚não-verdade’ e a dissimulação algo próprio do lógos ou também dos números? Onde está a diferença em seu modo de “desvelamento” entre os números e o lógos? E de que modo estão relacionadas mutuamente ambas as formas de “desvelamento”? E existem somente estas duas? E se existem somente estas duas, por quê?


CONCLUSÃO


    Para nós não é mais a sophia como ciência do hen a ciência fundamental, mas sim a ciência e a técnica da monás e do arithmós. Se compreendermos o arithmós como algo fundamental da estrutura de todo ente, estamos seguindo os passos da ontologia grega, mas sem o hen e a sophia. Isto quer dizer que damos à presença a primazia ontológica e indiretamente a damos também à interpretação do “Dasein”. Atualmente possuímos uma matemática e uma lógica muito desenvolvidas, mas não uma ontologia no sentido de uma ciência do uno.
O que restou  é somente o uno como categoría lógica. Uma ciência do uno como “único”, uma henologia, parece dar-se hoje somente no âmbito da religião e do esotérico. Ao mesmo tempo se desenvolve uma ontologia digital cujo reinado, geralmente sobre o manto dogmático de uma metafísica digital, me parece que não terá menos influencia do que teve, por exemplo, o materialismo nos últimos dois séculos.

    A ontologia digital pensa um código e um meio, o da rede digital global, na qual tem lugar nosso ser-no-mundo em diversas formas de chamar e ser chamados. Estas últimas questionam os limites clássicos da estrutura hierárquica um - muitos dos meios de comunicação de massa inventados no século passado que eram contrapostas à estrutura um - um dos meios individuais como o telefone. A rede digital mundial interativa torna possível uma “Aufhebung” hegeliana desta oposição dialética. Se recordarmos a palavra grega para mensagem, ou seja, angelía, podemos dizer que estamos confrontados com uma nova situação angelética cujo fundamento seria a ontologia digital. Chamo angelética a ciência que se ocupa deste fenômeno cujo código é mensagem/mensageiro (Capurro 2003). A hermenéutica como teoria do compreender pressupõe este fenômeno. A perspectiva digital do ente em sua totalidade (hólon), ou seja, a tese de que tudo o que é somente o admitimos em seu ser enquanto o compreendemos no horizonte digital, é o cerne desta ontologia. Embora tenha claro que este projeto de interpretação do ser não é o único, não se transforma em uma metafísica digital (Capurro 2006).

 

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Ultima modificación: 19 de marzo de 2014

 

     

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